Uma história de aventuras nas ilhas Selvagens

Este ano comemora-se o quadragésimo aniversário da Reserva Natural das Ilhas Selvagens, a reserva mais antiga de Portugal.
A história de Jaques, um homem que há mais de 30 anos trabalha naquelas ilhas não deve passar despercebida…
No fim dos anos 70, Jaques trabalhava no Porto Novo, nas bananeiras, mas tinha um amigo faroleiro, de nome Eduardo que o convidou a ir até ao Ilhéu Chão, uma das Ilhas Desertas, para transportar oxigénio para o farol que lá existe. Era uma manutenção que exigia carregar garrafas de oxigénio de 100 e 120 kg, às costas…
Certo dia, o referido amigo convidou Jaques para ajudá-lo no farol da Selvagem Grande, isto em 1981. E lá foi Jaques, todo entusiasmado, para estas ilhas distantes…e foi assim, a primeira de muitas viagens, mal sabia ele, que fez até ao extremo Sul de Portugal.

Viagem à Selvagem Grande…

Partiu no Schultz Xavier com 2 companheiros, João Quintal e o Freitas, e permaneceram 20 dias na Selvagem Grande. Na altura, o dinheiro que o Sr. Jasmins pagava por este trabalho era bastante aliciante para Jaques…
Foi na Selvagem Grande que encontrou o Sr. Fernando Almada com o seu genro. Foi a Fernando Almada que manifestou o desejo de voltar e trabalhar naquela ilha, e pouco tempo depois, foi contactado por este, já na Madeira, para a possibilidade de lá ir trabalhar.
Jaques nem hesitou…agarrou logo a oportunidade e lá partiu para as Selvagens, começando uma nova actividade: ser Vigia das Ilhas!

Trabalho de Vigia das ilhas

Passados 15 dias, entra Filipe Almada, filho de Fernando Almada que apesar de na altura ter 17 anos, já muitas vezes tinha ido aquelas ilhas a bordo de atuneiros. Jaques lembra que até foi necessário o pai Almada assinar um documento para que o filho pudesse também participar e ser Vigia. Ambos integraram então, a equipa de Vigias que na altura era constituída por 3 pessoas, e realizavam estadias de 40 dias cada um, ficando sempre 2 Vigias nas Selvagens!

Tempos difíceis…Aventuras…

Os tempos eram difíceis, pois, as estadias eram longas e não tinham muitas comodidades! O frigorífico era pequeno e funcionava a petróleo e por isso recorriam ao que a natureza lhes dava, peixe e coelho, mas Jaques lembra que chegou a ficar 76 dias na Selvagem Grande… Quando o tempo não permitia, ou havia avarias nos navios, a rendição prolongava-se. Não viu o nascimento do filho! Quando chegou à Madeira, o primogénito já ia a caminho dos 2 meses de idade…
Lembra que por 3 ou 4 vezes, o aviocar largou comida no topo da Selvagem Grande, pois devido ao mau tempo, as rendições foram adiadas! Para tal, marcavam com um lençol branco, no topo da ilha, a zona onde poderiam atirar os mantimentos do avião, que correspondia à área onde não nidificavam os Calcamares….
Conta que quando o mar estava mau para o desembarque faziam-no na Baía das Pardelas, o que implicava carregar os mantimentos todos às costas, encosta acima, atravessar o planalto da ilha e descer do outro lado, até às instalações…
A rir, relata que quase faltou ao casamento! Quando foi para as Selvagens tinha 26 anos e aos 28 iria casar…Mas, a data da rendição foi alterada e Jaques avisou a noiva, via rádio, que corria o risco de não chegar a tempo ao casamento! Sorte foi que pediu boleia a uma embarcação de pesca, “Baía de Machico”, e chegou 2 dias antes do casamento!
Também conta que num almoço de Natal, Fernando Almada cozeu milho e como não tinha couve, picou salsa…e lá comeram, mas com muita saudade e tristeza no coração…
Outro momento complicado foi quando não choveu durante 1 ano e tiveram que recorrer à Furna da água (cai uma pinga de água de 6 em 6 segundos) para terem água para beber e cozinhar.
Tempos bons…e a vontade de sempre voltar

Mas as condições melhoraram muito! Jaques relembra que desde que entrou no Serviço do Parque Natural da Madeira, tal como Filipe, ambos actuais Vigilantes da Natureza, as condições da casa foram melhoradas! Afirma que com a erradicação dos murganhos, que eram na ordem dos milhares, através do projecto de recuperação dos habitats terrestres da Selvagem Grande em 2000, é um privilégio ir e trabalhar naquelas ilhas. É uma alegria ver o coberto vegetal recuperar, a natureza a repor o seu equilíbrio….
Para este homem, que não enjoa no mar, e faz viagens de 12 horas ou mais, a sensação de estar numas ilhas cheias de vida, afastadas e isoladas de tudo, é razão de viver!
Afirma ainda que se lhe tirassem as Selvagens ficaria doente…
E aqui fica um curto apontamento, uma breve entrevista, a um homem humilde e simpático, de grande coração, cheio de satisfação e orgulho naquilo que faz e que abraça todos os dias, com a mesma intensidade de há 30 anos atrás...
 

publicado por Pedro Quartin Graça às 08:49 | link do post | comentar