As Ilhas Selvagens

Autor: José Lemos

Nota: Os nossos agradecimentos ao autor

 

( Foto by web)

Introdução - Generalidades
O Arquipélago da Madeira já era conhecido desde meados do século XIV por navegadores, que percorriam o Atlântico à procura das “paradisíacas ilhas atlânticas” ou do “paraíso perdido” da Antiguidade Clássica da Europa, onde Fenícios e Gregos narravam “odisseias” para lá das “Colunas de Hércules”, que se perpetuaram na cartografia da época, desenhada por cartógrafos ibéricos e italianos.
Carta Portulano de Angelino Dulcert. Majorque, 1339
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Na carta de Dulcert de 1339, «a costa africana e algumas das ilhas Canárias já eram referenciadas e anotadas. As ilhas madeirenses só aparecem desenhadas em 1351, numa carta do chamado atlas Mediceo e logo a seguir numa carta atribuída aos irmãos Pizzigani, de 1367, numa folha do planisfério catalão de Abraão Cresques, de 1375 (conservada na Biblioteca Nacional de Paris), na carta de Pinelli, de 1390», e também na «carta de Solleri, de 1385, além de várias outras». Nestas, «verificam-se algumas modificações dos contornos e do posicionamento relativo das ilhas de carta para carta, e ligeiríssimas alterações na grafia das designações da Madeira conhecida por Lenyame, Lecname ou Legname e das Selvagens por Selvagens ou Salvages, estas pela primeira vez apontadas, na carta dos Pizzigani de 1367», segundo Luís de Albuquerque e Alberto Vieira - “O Arquipélago da Madeira no Século XV”. No ano 1489 na Carta Portulano do Cartógrafo Albino de Canepa, as Selvagens já eram uma “referência cartográfica” entre a Madeira e as Canárias, conforme se vê a figura abaixo colocada.
Carta Portulano do Cartógrafo Albino de Canepa, 1489
(Foto by web)

Segundo o Tenente-Coronel Alberto Artur Sarmento, na sua obra intitulada a “As Selvagens (1906)”, refere que, é «a Diogo Gomes, navegador ao serviço do infante, mais tarde almoxarife do paço de Cintra, que se deve a primeira noticia da Selvagem, por um seu manuscripto intitulado ‘De insulis primo inventis in oceano occidentis’. Este manuscripto, existente na bibliotheca real de Munich, foi traduzido para allemão em 1845 pelo Dr. SchmelIer, e em 1899 vertido todo o codice do latim pelo sr. Gabriel Pereira, da Sociedade de Geographia de Lisboa.
'Em certo dia, vindo eu, Diogo Gomes pela ultima vez da Guiné, ao meio das ilhas Canarias e a da Madeira, vi uma ilha e estive n’ella, chamada ilha Selvagem.
É estéril, ninguem habita ahi, nem tem arvores nem aguas correntes. As caravellas do senhor infante descobriram esta ilha e descendo em terra acharam muita urzella, que é uma herva que tinge os pannos de côr rubra, e acharam-na em grande abundancia.
Depois, alguns pediram ao senhor infante que lhes desse licença para irem alli com as suas caravellas e podessem transportar a urzelIa a Inglaterra e Flandres; onde tem grande valor.
O senhor infante deu-lhes licença, com a condição de lhe darem a quinta parte do lucro, o que fazem.
E o senhor infante mandou para alli caprideos que se reproduziram muito bem'».
Diogo Gomes era moço da câmara do infante D. Henrique e foi também seu navegador. Numa navegação efectuada em 1456 esteve na embocadura do rio Grande (actual rio Geba, na Guiné) e terá, no regresso, subido o rio Gâmbia até Cantor, onde obteve as primeiras informações sobre as explorações mineiras no Senegal e Alto Níger e desembarcado nas ilhas orientais do Arquipélago de Cabo Verde. Em 1459/60 voltou à Guiné e explorou a região do rio dos Barbacins. No regresso de uma destas viagens “poderá ter descoberto” as Ilhas Selvagens. A data oficial da descoberta das ilhas ainda parece que continua a ser um enigma. Na consulta a vários autores, as datas da mesma, não são concordantes (?). 1438, é a data mais referenciada. Contudo como já foi dito anteriormente, as Selvagens já constavam da cartografia trecentista.

Planisfério catalão de Abraão Cresques, de 1375
(Conservado na Biblioteca Nacional de Paris - Foto by web)
Prosseguindo a supracitada obra do Tenente-Coronel Alberto Artur Sarmento “As Selvagens (1906)”, «encorporados na corôa os bens do Mestrado de Christo, no reinado de D. Manoel, fizeram os reis concessões dos terrenos da Ordem a muitos fidalgos de sua casa e esforçados guerreiros que se distinguiram nas luctas de além-mar.
No seculo XVI pertenciam estas ilhotas a uma família madeirense do titulo de Cayados.
Um dos seus descendentes, o cónego Manoel Ferreira Teixeira, doou-as por 1560, a sua sobrinha D. Filippa Cabral de Vasconcellos, casada com José Ferreira de Noronha Franco, dos morgados das Selvagens.
Quando em l863 foi posta em execução a lei da extincção dos morgados, alguns d’elles registaram officialmente os seus bens, tendo-se d’isso descurado o morgado Cabral de Noronha.
Em 1904, os seus herdeiros venderam-n’as por posse incontestada ao sr. Luiz da Rocha Machado, seu actual proprietario». “As Selvagens (1906)” do Tenente-Coronel Alberto Artur Sarmento é uma monografia das ilhas Selvagens, nela dando conhecimento da sua história, geografia geologia, paleo-oceanografia, fauna, flora e das suas lendas até o início do século XIX. A estes conteúdos, de igual forma, são descritos no “Elucidário Madeirense” e nas “Ilhas de Zargo”.

Selvagem Grande
(...) «por serem hermas, e desconversáveis assi de navegação como de gente» (...)
(Foto do autor)
Segundo o autor das “Ilhas de Zargo”, «as Selvagens são denominadas por este nome, ‘por serem hermas, e desconversáveis assi de navegação como de gente, e com huns perigosos baixios, em distância de trinta léguas entre huma ou outra, as quais pode ser que sejam do número das doze’ que, segundo o historiador João de Barros, se dizem Canárias». Este ainda mais refere que, as Selvagens «em fins do século XVII, (…), faziam parte dum Morgadio administrado por uma família de Santa Cruz, da Madeira, do título genealógico Teixeira Caiado, ignorando-se os seus proprietários desde o tempo da colonização até aquela data. Em 1904, João Cabral de Noronha, descendente do morgado Cabral de Noronha vendeu-as ao banqueiro madeirense Rocha Machado, por cuja morte passaram à posse de seu filho, Luís da Rocha Machado, que guarda sobre elas o direito de coutada (…). A outros, se arrendam para caça e pesca, usufruindo-as também clandestinamente pescadores e caçadores canários da Ilha de Tenerife, seus próximos vizinhos».
O "carismático madeirense", Sr. João Borges, numa entrevista concedida ao semanário Tribuna da Madeira em Abril de 2003, com o título “Estado comprou as Selvagens ao banqueiro Rocha Machado”, por ocasião da visita oficial pelo então Presidente da República Dr. Jorge Sampaio às Selvagens, refere que, as «Selvagens pertenceram inicialmente a um cónego da freguesia da Sé, no Funchal. Depois, passaram para a família Cabral Noronha. Mas um dos membros da família (ao perder muito dinheiro no jogo), ficou com grandes dívidas. Para as saldar, decidiu entregar as Selvagens ao banqueiro Rocha Machado».
(...) «Na década de 1940, Luís Rocha Machado (que tinha herdado as ilhas do pai), passou a alugar as ilhas durante várias semanas a um grupo de pessoas que incluía Rufino de Menezes, o comandante Paços Gouveia e João Batata.
Todos os anos, na época em que as cagarras-bebés estavam gordas, o grupo ia até as ilhas para as apanhar. A ideia era extrair-lhes o óleo e guardar as penas e a carne para depois comercializar tudo.

Ninho de Cagarra
(Foto do autor)

Alexandre Zino - um grande apreciador de aves - acompanhava o processo. Um dia, vendo que os exploradores já começavam a perder o interesse pelas Selvagens, propôs ao grupo acabar com a matança. Procurou Luís Rocha Machado e conseguiu ficar como locatário das ilhas, proibindo a caça das cagarras.
Zino construiu nas Selvagens uma casa para estudar a vida das aves, tendo feito algumas descobertas curiosas, junto com dois investigadores do World Wildlife Fund (WWF). Zino teve sempre a intenção de tornar as ilhas una reserva natural, mas isso só aconteceu mais tarde, quando o Estado Português as adquiriu.
A aquisição das Selvagens pelo estado aconteceu no início dos anos 70 numa altura em que o World Wildlife Fund (WWF) manifestou o interesse pela compra das ilhas com objectivos científicos. Mas Luís Rocha Machado decidiu dar prioridade ao governo português.
Na cerimónia de aquisição estiveram presentes, o Governador da Madeira na altura, coronel Sobral, acompanhado do secretário de Estado do Tesouro, Costa André. Consta que foram vendidas por cerca de 1500 contos. Desde então as Selvagens pertencem ao Estado, tendo sido transformada em Reserva Natural.» Finalizou o Sr. João Borges, num artigo escrito pela jornalista Cármen Vieira, no citado semanário!
As Selvagens, foram classificadas como Reserva «até à batimétrica dos 200 m», através do Decreto-lei n.º 458/71, de 29 de Outubro, dirigida directamente pelo Serviço de Reservas e Parques Naturais, em Lisboa.

Selvagem Grande
(Foto do autor)

A 29 de Outubro de 2007, a Reserva das Ilhas Selvagens faz (fez), a aprazível idade de 36 anos, inicialmente como “Reserva” (Decreto-lei n.º 458/71, de 29 de Outubro) e depois classificadas como “Reserva Natural” (artigo 1.º do Decreto Regional n.º 15/78/M, de 10 de Março).

Selvagem Grande
(Foto do autor)

As Selvagens
O sub-arquipélago da Madeira
Enquadramento Geográfico - Geomorfologia e Geologia
As Ilhas Selvagens situadas no Atlântico Norte fazem parte integrante do Arquipélago da Madeira, e estão incluídas na divisão administrativa da Freguesia da Sé, concelho do Funchal. Geograficamente, as ilhas situam-se a cerca de 163 milhas, a Sul da Madeira e a cerca de 82 milhas, a Norte de Canárias. Coordenadas: 30°01'35" - 30°09'10" N / 15°52'15" - 16°03'15" W.


Carta Marítima - Selvagens
(Fonte, Instituto Hidrográfico)

Este pequeno arquipélago é constituído por dois grupos de ilhas e ilhéus, separados à distância de cerca de 11 milhas, entre as profundidades das batimétricas: 423 m, 323 m e 351 m, (ver carta marítima), e dispõe-se no sentido NE-SW. O grupo setentrional (NE) é constituído pela Selvagem Grande e dois Ilhéus adjacentes (o Palheiro da Terra e o Palheiro do Mar), e o grupo meridional situado a SW do anterior, é constituído pela Selvagem Pequena, conhecida por Pitão Grande, e Ilhéu de Fora, também conhecida por Pitão Pequeno, e os Ilhéus adjacentes a estas: Ilhéu Grande, Ilhéu do Sul, Ilhéu Pequeno, Ilhéu Alto, Ilhéu Comprido, Ilhéu Redondo e os Ilhéus do Norte. Estes dispostos em "arco", se assim se pode descrever, estão separados por um estreito braço de mar de baixas profundidades.

Selvagem Pequena
(Foto do autor)

As Selvagens, com cerca de 27 milhões de anos, mais antigas que o Porto Santo, Madeira e Desertas, são datadas geocronologicamente da época do Oligocénico, do período Paleogénico (Terciário).
Este grupo de ilhas e ilhéus e afloramentos rochosos constitui a parte imergida de um edifício vulcânico, pertencente ao “Hotspot de Canárias”, cuja base se encontra aproximadamente entre as batimétricas dos 3.000 e dos 4.000 metros de profundidade e que se foram construindo com as sucessivas erupções submarinas naquela área do Atlântico, sendo “aplanadas” pela erosão e sedimentação marinha. Segundo Carvalho e Brandão (Geologia do Arquipélago da Madeira-1991), «as Ilhas Selvagens estão geologicamente mais próximas das Ilhas Canárias que do restante Arquipélago da Madeira e que os três ilhéus principais das Selvagens encontram-se todos eles rodeados por recifes ou baixios maiores ou menores, alguns só visíveis na maré baixa». Estas, no seu conjunto têm uma área total de 281 ha de área terrestre.
Baía das Cagarras - “Filões calcáreos”
(Casa de Alexander Zino, à esquerda da Casa dos Vigilantes - Foto de José Santos)
O autor das “Ilhas de Zargo” refere que, as «Selvagens são atravessadas em vários sentidos por muitos filões de calcáreos, às vezes marmorizados, com espessuras que atingem mais de 1 m». Ainda mais refere que, as «Selvagens ligam-se todas pela curva batimétrica de 1.000 m, os Ilhéus de Fora, Pequeno, Comprido e os do Norte, pela batimétrica dos 20 m. Pela batimétrica dos 50, vemos que a erosão submarina tem actuado acima da batimétrica de 100 m, aproximadamente a 70 ou 80 m, construindo uma larga plataforma a Oeste, mas principalmente a N e a NE».

Selvagem Grande
(Foto do autor)
Selvagem Grande é «constituída por quatro conjuntos de formação, sendo o inferior constituído essencialmente por corpos vulcânicos intrusivos e extrusivos, predominantemente fonolíticos, o qual está sob uma formação composta essencialmente por sedimentos marinhos fossilíferos que, por sua vez, está sob uma camada essencialmente basáltica, sobre a qual se encontra um tapete de areias organogénicas calcárias amareladas», (Carvalho e Brandão, Geologia do Arquipélago da Madeira-1991).

Planalto - Selvagem Grande
(A cerca de 100 m de altitude - Foto de José Santos)
Selvagem Grande é a maior ilha e apresenta uma «forma pentagonal», com arribas altas em toda a sua costa, cortadas em declive precipitado do lado N, descaindo do planalto principal. As elevações mais altas desta Ilha, são o Picos dos Tornozelos, Inferno e Atalaia (sendo esta última a mais elevada, cerca de 163 metros), e delineiam-se vales muito largos, mas pouco profundos, pois os terrenos são mais ou menos planos. Esta, tem uma área de 245 ha e uma linha de costa de cerca 9.500 m. Na zona do planalto atinge o «seu maior comprimento de 2.000 m desde a Ponta do Risco até a Ponta de Leste, com a maior largura de 1.700 m da Ponta da Atalaia à Ponta Espinha e sobe a maior altura até cerca de 100 m. É completamente árida e desabrigada», segundo o autor das “Ilhas de Zargo”, e ainda mais refere, «que distinguem-se três costas nesta Ilha: a de leste, em forma de arco, alta (Pico dos Tornozelos) e de difícil ascensão, arenosa e rochosa; a costa de norte, rectilínea, também rochosa, alta e inclinada para o mar; a costa de oeste, alta, inacessível até o Pico da Atalaia, sendo mais suave e alcançável do lado da Ponta deste nome. Tem como ilhéus adjacentes o Palheiro da Terra e o Palheiro do Mar. O Palheiro da Terra, dista 850 m da Selvagem Grande a NW, e o Palheiro do Mar, situa-se a 1.500 m a WNW da Ponta do Risco e a 2.100 m a NW do Cabeço da Atalaia. No planalto, «o basalto das encostas é colunar».
Basalto Colunar - Selvagem Grande
(Foto de José Santos)

Na Selvagem Grande existem várias grutas, presumivelmente consequência de canais de lava vulcânicos, entre as quais, a da Baía das Pedreiras e a do Pico do Inferno. A primeira, a 2 m acima do nível do mar, tem cerca de 30 m de comprimento e 2 de altura.
A Selvagem Grande é a primeira Ilha que se emblema no horizonte, geralmente à distância de 24 milhas e até de mais, se o permitirem as condições atmosféricas. Desta também se pode observar o Pico de Teide em Tenerife. Tem um pequeno desembarcadouro situado na Baía das Cagarras onde se encontra a casa dos Vigilantes do Parque Natural da Madeira e de onde parte o acesso ao planalto.
Selvagem Pequena, também conhecida por Pitão Grande e o Ilhéu de Fora, igualmente conhecido por Pitão Pequeno, são os maiores ilhéus deste grupo insular, todos considerados primitivos focos vulcânicos. Sobre estes, Carvalho e Brandão (Geologia do Arquipélago da Madeira-1991) referem que, a Selvagem Pequena ou Pitão Grande «é constituída essencialmente por formações fonolíticas e basálticas, possuindo abundantes areias organogénicas calcárias, na sua parte central. O Ilhéu de Fora tem uma constituição geológica muito semelhante à da Selvagem Pequena».

Selvagem Pequena
(Foto do autor)

Selvagem Pequena ou Pitão Grande, com uma área de 20 ha, «tem uma forma bastante irregular, mede 800 m de comprimento e 500 m de largura». As suas arribas são baixas e rodeadas de algumas praias de areia e calhau rolado. A sua linha da costa pode medir 2.600 m na preia-mar e 6.300 na baixa-mar», segundo o autor das “Ilhas de Zargo”. A SE do Pico do Veado, existe um fundeadouro.
Nesta Ilha existe uma casa pré-fabricada (estação de vigilância), onde permanecem os Vigilantes do Parque Natural da Madeira, no período estipulado pelo mesmo.
O Ilhéu de Fora ou Pitão Pequeno, com uma área de 8,1 ha, «da qual só emergem 500 m de comprimento por 300 m de largura e coberta de areia», a sua superfície, também aumenta as suas dimensões na baixa-mar.
Em termos de relevo, todos os ilhéus das Selvagens são de pouca altitude, sendo os pontos mais elevados de cada um dos dois ilhéus principais, o Pico do Veado, na Selvagem Pequena ou Pitão Grande, com cerca de 49 metros e o Pitão Pequeno ou Ilhéu de Fora, com cerca de 18 metros. A grande extensão deste planalto insular, para N e W mostra como são «violentos os mares destes quadrantes» e certamente, estas ilhas tinham no seu passado dimensões bastante maiores.

Selvagem Grande
(Foto do autor)

Clima
Pela situação geográfica e a condição de ilhas, as Selvagens sofrem a influência oceânica, “condicionadas” pelas correntes do Golfo e das Canárias e pelos ventos alísios oriundos de Nordeste. O seu clima pode ser considerado tipo oceânico subtropical, como algumas zonas costeiras das ilhas de Canárias, (outros autores classificam-no de subtropical marítimo).
A baixa altitude, não favorece a condensação e as nuvens arrastadas pelos ventos, passam sem que haja precipitação. Ocasionalmente, são afectadas por tempestades que formam no Atlântico acompanhadas de ventos provenientes de Norte ou de Oeste, que provocam chuvas torrenciais acompanhadas de trovoada durante algumas horas.
Por vezes, os ventos de Leste e de Sul precedentes do continente africano carregados de poeiras e massas de ar quente recordam a proximidade do Deserto do Saara, aumentando as temperaturas e reduzindo a humidade do ar. As temperaturas rondam os 15 e 20 graus centígrados, no Inverno. A presença de numerosas conchas de moluscos terrestres, segundo os especialistas, indicam que no passado o clima destas Ilhas foi mais húmido do que nos dias de hoje.
Flora e Fauna Terrestre

Selvagem Grande
(Foto do autor)
Biogeograficamente as Selvagens fazem parte de Macaronésia, assim como, os arquipélagos da Madeira, dos Açores, das Canárias e de Cabo Verde.
vegetação da Selvagem Grande foi outrora usada com fins comerciais através da apanha da urzela, líquenes do género Nemaria que eram exportados para a Europa.
Cultivou-se também, na Selvagem Grande outras espécies vegetais com fins comerciais particularmente osumagre (Rhus Coriaria) e o pastel (Isatis Praecox). Presentemente encontra-se em fase de recuperação os seus endemismos, após a retirada desta flora exótica e dos herbívoros (Coelhos) e roedores (Mus barbarus e Mus musculus), introduzida no passado, intencionalmente os primeiros e os segundos acidentalmente.
Selvagem Pequena ou Pitão Grande e o Ilhéu de Fora ou Pitão Pequeno, constituem habitats únicos, com os ecossistemas inalterados. Estas ilhas por serem inóspitas, não criaram condições de colonização por parte do homem e ao que parece nunca ocorreu a introdução de herbívoros.
A flora terrestre das Ilhas Selvagens, na sua generalidade é de porte rasteiro, e reveste-se de um grande interesse científico. Esta compreende «cerca de 105 plantas vasculares distintas, das quais 11 são endémicas destas ilhas. Alguns exemplos são: Scilla maderensis var. melliodoraArgyranthemun thalassophilumLobularia canariensis ssp. rosula-venti e Euphorbia anachoreta». Esta última espécie surge unicamente no Ilhéu de Fora, (fonte, Parque Natural da Madeira). A vegetação das Selvagens tem mais afinidade com as Canárias do que com a Madeira.
(Pequena gruta com ninho de Cagarra - Foto de José Santos)

As Ilhas Selvagens têm uma grande importância ornitológica. É uma das mais importantes colónias de aves marinhas do Atlântico. São um “santuário de nidificação” de aves que desfrutam condições peculiares e únicas.
A fauna vertebrada é representada por «8 espécies pertencentes a 3 famílias: Procelariidae (5 espécies),Laridae (2 espécies) e Motacillidae (1 espécie)».
Nas Selvagens existe a «maior colónia de Cagarras Calonectris diomedea borealis do Mundo, com uma população recentemente estimada em cerca de 18.000 casais».
A mais numerosa ave das Selvagens é «o Calcamar (Pelagodroma marina), com uma população superior a 40.000 casais. As outras aves marinhas são: Alma negra (Bulweria bulwerii), Roque de Castro (Oceanodroma castro) e o Pintainho (Puffinus assimilis) Garajau comum (Sterna hirundo) e Gaivota de patas amarelas (Larus cachinnans), estas duas anteriores, inferiores a 50 casais.

Corre Caminhos
(Única ave residente na Selvagem Grande, a merendar a “ração do fiel companheiro” dos Vigilantes do Parque Natural - Foto de José Santos)
A única ave residente que pode ser encontrada durante todo o ano, é o Corre Caminhos (Anthus bertheloti bertheloti), considerada uma sub-espécie com características iguais à espécie que se encontra nas Ilhas Canárias, mas é diferente da existente no Arquipélago da Madeira».
Na Selvagem Pequena (onde não existem aves terrestres), evidencia-se «a grande colónia de Calcamar (Pelagodroma marina ) e a nidificação ocasional de Gaivina-rosada (Sterna dougallii) e de Gaivina-de-dorso-preto (Sterna fuscata)», (fonte, Parque Natural da Madeira).
As outras espécies de vertebrados destas ilhas são a osga (Tarentola boettgeri bishoffi) e a lagartixa (Lacerta duguessii), endemismos da Macaronésia.
Nestas ilhas existe um apreciável número de invertebrados endémicos, com uma elevada percentagem de insectos endémicos, sobretudo coleópteros e lepidópteros.
Por curiosidade, um coleóptero (Deuchalion oceanicus), espécie de escaravelho, endémico do Ilhéu de Fora, vive unicamente associado à Euphorbia anachoreta, planta também endémica, (fonte, Parque Natural da Madeira).
Ilhas Selvagens - Importância no Passado e no Presente

Selvagem Pequena
(Foto de José Santos)

Referindo novamente a notícia por 1459/60 (pela última vez da Guiné, ao meio das ilhas Canarias e a da Madeira), de Diogo Gomes sobre as Ilhas Selvagens, “De insulis primo inventis in oceano occidentis”, «as caravellas do senhor infante descobriram esta ilha e descendo em terra acharam muita urzella, que é uma herva que tinge os pannos de côr rubra, e acharam-na em grande abundancia. Depois, alguns pediram ao senhor infante que lhes desse licença para irem alli com as suas caravellas e podessem transportar a urzella a Inglaterra e Flandres, onde tem grande valor». O «senhor infante deu-lhes licença, com a condição de lhe darem a quinta parte do lucro, o que fazem».
Segundo o autor das “Ilhas de Zargo”, o valor atribuído à urzela devia-se à sua aplicação na tinturaria, “tingindo-se os panos de cor rubra”. «Este líquen existe no arquipélago madeirense como planta espontânea, tendo-a encontrado o navegador Diogo Gomes, nas referidas Ilhas Selvagens» (…). «Desde essa época vegetam três espécies de urzela: Nemaria fuciformes e N. rocella, abundantemente nas Desertas; N. fucoides na Madeira, onde vegetam também as outras espécies, assim como no Porto Santo. É uma planta de meio restricto, naturalizada nas rochas da beira-mar, mais expostas ao sol, aglomerada em tufos de cor cinzento-pardacenta, e geralmente em locais tão inacessíveis que Gaspar Frutuoso, querendo mostrar os trabalhos, perigos e mortes causadas pela construção das primitivas levadas ou canais de irrigação cortadas em rochas escarpadas e sobre abismos de centenas de metros de profundidade, escreveu que 'os homens trabalhavam nelas em cestos amarrados com cordas, pendurados pela rocha, como quem apanha urzela'».
A aplicação deste líquen à tinturaria fazia-se depois de «convenientemente preparado com adicionamento de urina para o curtimento, (uma vez) libertada do amoníaco pela acção da cal, e reduzida a uma pasta de consistência sólida, tendo a coloração violeta avermelhada». (...)
(Continua)
publicado por Pedro Quartin Graça às 17:00 | link do post | comentar