In memoriam - Dietrich Putzer

 

Desconhecido para a grande generalidade dos leitores, o Professor universitário alemão Dietrich Putzer, falecido faz hoje uma semana, era um grande amigo de Portugal, da Madeira e das Ilhas Selvagens em especial. Não sendo português, terá sido o estrangeiro, ainda vivo, que mais fez pelas ilhas, de forma discreta mas incisiva, como era seu timbre.

Recentemente o Diário de Notícias da Madeira publicara sobre Putzer: "No alpendre da casa dos vigilantes, Dietrich Putzer apontou para os mastros à sua esquerda, onde esvoaçavam duas bandeiras, uma da República, outra da região autónoma. "A bandeirinha de Portugal foi eu que trouxe", disse. Depois, olhando o azul ao fundo, para lá do chão de areia onde os calcamares fazem os ninhos, suspirou: "É muito mar."

Putzer era um cientista e dos bons, professor universitário de física aplicada em Duesseldorf, apaixonado por insectos e terras remotas, que, ao longo dos anos, visitou dezenas de vezes as Selvagens. As ilhas levaram a que trocássemos correspondência frequente por e-mail, de há algum tempo a esta parte. Recentemente enviara-lhe a minha tese de doutoramento que este leu em poucos dias e, de imediato, citou num artigo científico que escreveu. Nunca lhe cheguei a agradecer. A sua morte repentina surpreendeu todos quantos viam em Putzer uma figura de relevo também no estudo do património arqueológico das Selvagens. Como homenagem a Putzer divulgo o conteúdo do ultimo e-mail que este me enviou, no bom português que aprendera como auto-didacta que era. Está lá tudo sobre as dificuldades operacionais da nossa Marinha e do pessoal de vigillância, pese embora o enorme esforço de todos. Os leitores e, fundamentalmente, o poder político, interpretarão como quiserem.

"Estimado colega, agradeço-lhe o seu livro que recebi a bordo do Schultz Xavier no dia 15 de Julho poucos minutos depois de ter sido salvado do mar selvagense. Nos dias seguintes estive domicilado na estação de Biologia Marinha do Funchal tendo o tempo de lançar-me no estudo desta multidão de informações condensadas.(...)
O Schultz Xavier tinha partido do Funchal no dia 14.07.15 pelas 14:00. A bordo estavam oito deputados do PS, mais uma jornalista (a Cristina), um biólogo, o Thomas Dellinger (também do PS), dois vigilantes que deveriam fazer a rendição, uma engenheira, a sra.  Carolina Sumares  e o Comandante do Comando Marítimo Sul. Esta tropa tinha a intenção de desembarcar na S. Grande para ver in situ os lugares de achados arqueológicos e agro-industriais com o mapa de STEINER nas mãos. Era também projetado que eu, que estive na S.Pequena com dois Vigilantes desde o 12 de Junho , acompanhasse a turma na S. Grande. Mas o barco de Guerra, Sch.X., nobre elemento da NATO para proteger a área marítima mais a sul de Portugal, só fazia 6,5 nós necessitando 30 horas - com vento norte e corrente na poupa- até comparecer à Selvagem Pequena sem nenhuma manifestação de parar na S. Grande, mas declarando que regressássemos imediatamente para o Funchal em direto. Os tres indivíduos perdidos na S.Pequena tinham estado lá sem rádio, sem motor de bote em função defendendo  virtualmente o litoral da Pequena, indefesos. (Na noite do 17 de Junho mesmo  o farol da Pequena  se tinha apagado  para coroar as disfunções). No dia 15 de Julho nos trouxeram um motor declarado "novo". Confiando nisso deixámos como últimos  o desembarcadouro da Pequena em direção do Schultz Xavier que estava- máquinas em marcha - numa distância de 5 km. O novo motor expirou depois de meio km e um vento gentil do Norte nos prometia que as Canárias e  Marrocos estivessem além do horizonte. Equipamento de salva-vida= zero. O sol iria deitar-se em breve. Felizmente tínhamos a bordo um dos mecânicos faroleiros cujo fraco telemóvel  conseguiu transmitir a nossa situação ao Schultz. Salvaram-nos. Evitando a lembrança daquelas linhas  .. ó grande mar quanto do teu sal, são lágrimas de ....
O farol reparado funcionou na hora da despedida. A S.Pequena estava agora sem Vigilantes e - indefesa-  à espera de infractores e caçadores submarinos canários cujo pisoteio vai estragar muitos ninhos do calcamar. A situação era e continua ser humilhante para  Portugal e os vigilantes que se expõem innecessariamente a perigos pessoais devido a uma  aparelhagem electrónica e motores em disfunção.
É engraçado que o PNM devolve cada ano alguns mil Euros "não gastos"  em vez de utilizá-los para a compra de rádios novos e motores novos para os botes.
O Schultz Xavier com o vento contra a proa, agora só necessitou 20 horas até chegar ao Funchal,  mais outro milagre. Os bravos deputados voltaram então ao Funchal depois de 50 horas no mar e sem terem posto o pé na Ilha cujos tesouros históricos quiseram ver in situ para testemunhar  que os argumentos do lado espanhol : " son rocas en la mar y nada más",  fossem refutados.
Nas conversas com os políticos e os militares a bordo acentuei que também a S. Pequena deveria ter presença de vigilante o ano inteiro e que além disso um fuzileiro deveria estar ao lado do vigilante tanto na S. Grande como na S.Pequena.
Agradeço a sua paciência de ter lido esta história merditativa que reflete que a posição portuguesa nas Selvagens pode ser ridicularizada à vontade mesmo numa época de tenção luso-espanhola titulada "rochas ou ilhas". 
Finalmente gostaria de saber, se já há sinais da preparação dum processo na ONU ou na UE.                                                        

Cumprimentos Dietrich Putzer".

 

Putzer foi salvo no mar e morreu em terra. Ironia do destino...Obrigado por tudo Dietrich e até sempre!

publicado por Pedro Quartin Graça às 10:03 | link do post